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O que os livros de autoajuda não te contam sobre cura

O que os livros de autoajuda não te contam sobre cura

A ilusão de quem já superou

Quanto mais experimentamos os desafios da vida, mais somos tentados a acreditar que já provamos a dor e saímos completamente ilesos.

Ao longo desses anos, muitos livros passaram ao lado da minha cama — aquele que procuro quando estou ociosa, ansiosa, curiosa, quando quero fugir de um pensamento ou precisar lidar com outros. Quase sempre a leitura me ajudou a organizar as ideias e a compreender as emoções. Ela me despertou para o trabalho árduo da mudança interior, que é inerente ao crescimento. Crescer demanda responsabilidade, e isso não acontece sem alguma tensão interna.

Somos atraídos pela ideia da dipirona emocional. Ela dura algumas horas e nos permite caminhar um pouco mais sem pensar na dor. Mas cuidado: se você começar a misturar com outros remédios, uma resposta indesejada vai aparecer.

A terapia vai ajudar — e como! — mas até mesmo sentar diante do Mestre dos Magos psicologia, com perguntas difíceis e silêncio constrangedor, não te ensina sobre vulnerabilidade. Andei um longo caminho fugindo da dor e procurando respostas para questões profundas, antigas e novas. Nunca houve uma resposta milagrosa, apenas processos e o gotejar diário de esperança.

 

Espremendo o Limão

 

O caminho da perseverança

O ditado “água mole em pedra dura” é batido, mas verdadeiro. Existe um caminho de perseverança diante de quem insiste em dar mais um passo, ainda que o joelho esteja ralado e dolorido da última queda. E que queda. Ralou tudo e quase não deixou nada. Mas se você continuar andando, sem correria, sem pressa, com uma delicada paciência consigo mesmo, verá que valeu a pena perseverar.

 

O perigo de parecer bem resolvido

E como é perigoso achar que estamos imunes a essa difícil tarefa. Parecemos bem resolvidos, satisfeitos, alegres, parecemos ter o controle desse bagunçado roteiro — e quando algo acontece, as borboletas na barriga dão lugar à ansiedade. Polidos demais, com uma transparência vulgar e incoerente com o homem interior. Com medo de falar o que pensamos para não perder o que nem temos. Corremos o risco de viver uma mentira.

 

O que Marty McFly nos ensina sobre cura emocional

Sortudo foi Marty McFly, que tinha uma máquina que o levava de volta para o futuro. Ele quase surtou quando viu o homem que se tornaria e, mais ainda, quando reconheceu o pai que nunca havia enxergado. Sem querer, teve um vislumbre e a oportunidade de tocar o passado e, em outros volumes, o futuro. Ficou perturbado e ansioso porque não poderia fugir nem livrar os que amava das dificuldades. Se angustiou ao perceber que ele mesmo não poderia escapar, ainda que tivesse uma máquina do tempo. Não controlou o tempo — apenas aprendeu a navegar nele.

A maior sorte do McFly não foi a máquina: foi o Doc, a voz da sabedoria que o ensinou a atravessar a viagem. Doc, incompreendido, lunático, à frente do seu tempo, com uma inteligência cansativa, chegava com direções e planos que o salvaram durante suas andanças. Doc nunca deu respostas completas, porque sabia que aquele jovem não poderia saber de tudo. McFly precisava viver.

 

Cura emocional não existe sem o outro

Por isso, luto para acalmar meu impulso controlador, que de vez em quando me distrai e me rouba. Os livros de autoajuda são exatamente o que significam: eles te ensinam a ajudar a si mesmo (pausa para essa revelação assentar no seu coração). Mas ajuda, para mim, não existe sem o outro. Não existe vulnerabilidade sem alguém com quem possamos ser vulneráveis. Não existe autocirurgia, só autopiedade. Não existe autocura, mas existe autossabotagem. Meu rosto é para o outro, e no outro me reconheço humana — com todas as minhas debilidades e carências.

Não queira ser o McFly sem o Doc. Você não duraria um minuto.

 

E você? Anda tomando muita dipirona emocional? 🍋

 

Ps.: Se não lembra do McFly, aqui tem uma amostra (é só clicar na imagem)


O que os livros de autoajuda não te contam sobre cura emocional

1 comentário em “O que os livros de autoajuda não te contam sobre cura”

  1. muito verdadeiro. Às vezes a gente acha que superou porque aprendeu a continuar caminhando, mas algumas dores ainda precisam ser acolhidas no processo. Obrigada por compartilhar com honestidade e sensibilidade.
    Parabéns, Larissa!

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