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A diferença entre perdoar e esquecer: por que quase sempre a gente confunde as duas coisas

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Perdoar e esquecer às vezes podem parecer a mesma coisa, mas não são. Eu escrevo a partir de quem já tentou esquecer antes de aprender a perdoar, e descobriu a diferença da forma mais trabalhosa possível.

Às vezes desejamos uma dose de amnésia seletiva, uma forma de lidar com memórias indesejadas. Quando assistimos a isso numa ficção, a situação toma um ar de desespero, porque normalmente é o momento em que as coisas ruins começam a se repetir ou piorar. A mocinha não reconhece a pessoa que lhe fez mal. Uma situação que nos prepara para o “ai, caramba! Eu sabia que isso ia acontecer…”. Nós percebemos que, naquele momento, a amnésia não pareceu ajudar tanto.

Somos um enorme aglomerado de memórias e emoções que se misturam. Memórias assumem novos lugares na mente, podendo se confundir com sensações ou imaginação. Nós apenas não queremos tocar o que foi ferido antes. Parece racional, mas pode ser puramente instintivo, seu completo oposto.

O que é perdoar, de verdade

Perdão se parece com algo que cria pontes com a nossa história. Nem tanto como uma estrada paralela; parece-me bem mais um grande portão que acessamos para chegar do outro lado. E, quando atravessamos, podemos provar de uma paisagem diferente.

Algumas coisas nessa paisagem nos lembram a anterior, mas, por algum motivo, nos trazem uma sensação diferente, nos causam uma emoção diferente. E essa é uma travessia não linear, muitas vezes torta e íngreme, ou seja, trabalhosa.

Por que a gente não perdoa: o controle que não parece controle

Às vezes a nossa hesitação em perdoar está muito mais ligada ao controle do que a qualquer outra coisa. Se não perdoar é a única forma de “punir” a pessoa que me feriu, eu posso acabar me agarrando a isso com unhas e dentes; afinal, esse não é apenas um prêmio de consolo, é minha chance de “fazer alguém pagar por isso”.

Talvez não percebamos muito o efeito disso quando não precisamos lidar o tempo todo com uma pessoa ou situação. Mas se imagine como alguém que está magoado com uma pessoa que está no seu caminho para o trabalho, aquele mesmo caminho que você pega todo santo dia. Aos poucos, você começa a evitar passar num trecho por não querer encontrar aquela pessoa. Mas, no caminho novo que você fez, havia um papelzinho de bala de que aquela pessoa gosta, e isso te lembra dela; então, no outro dia, você faz um novo caminho. Mais tarde, você passa na frente daquele lugar que te lembra como você se sentia, então resolve tentar mais um caminho. Quando menos perceber, você estará chegando exausto ao trabalho, porque todos os dias faz um percurso ridiculamente longo só para não acessar o que aconteceu. Mas não apenas seu corpo está cansado, sua mente também, e agora tudo que você faz nesse tempo gira em torno de não lidar com o que te feriu.

Olhando assim, parece óbvio que nunca escolheríamos agir dessa forma. Mas exatamente por não pensar nisso é que acabamos agindo assim em relação a muitas coisas na vida. Pautamos nossas relações e escolhas pelo que nos aconteceu, e aquele acontecimento se torna uma direção que nunca queríamos que existisse.

A diferença real entre perdão e esquecimento

E é nesse lugar que o perdão difere do esquecimento. O perdão me permite atravessar a dor. O esquecimento apenas passa por cima.

O perdão libera a memória para seguir, ainda que no processo ela fique num vaivém. Apenas esquecer não te capacita a superar e aprender; é algo paliativo. O perdão começa tímido e confuso, mas pode se tornar generoso e sábio. O esquecimento assume uma roupagem nova, meio arrogante e rígido. Parece-se com aquele adolescente que diz que não precisa de ajuda porque aparentemente já sabe de tudo. É uma questão de tempo até ele pedir “arrego”.

O perdão te libera para tomar novos caminhos sem medo. O esquecimento pode tomar novos caminhos, mas nunca chega a novos lugares. O perdão parece uma parede alta que precisa ser escalada; o esquecimento se parece com o escorregador. Um pode te fortalecer e amadurecer, o outro pode te envelhecer e, ainda assim, nunca te amadurecer.

Ambos, perdão e esquecimento, podem se encontrar lá na frente. Algo perdoado, com o tempo, pode ser esquecido. Algo esquecido, mas não perdoado, sempre volta, cobrando uma conta.

O que acontece quando a gente insiste em não perdoar

Enquanto acredito que não perdoar é uma forma de ter poder sobre as situações, não desperto para a realidade de que, talvez, perdoando, eu viva o poder de seguir em frente.

Eu consigo viver um novo caminho, para um novo lugar, se eu me movo de dentro para fora. Aí, mesmo que o cenário e a circunstância ao meu redor não mudem, eu mudei; não porque esqueci, mas porque o que me feriu não tem mais poder sobre mim.

Caminhar perdoando é uma escolha diária, é exaustivo e vai tocar nosso ego todos os dias. Mas, assim mesmo, é possível continuar sendo fiel a quem realmente somos, sem as camadas de autopreservação e de memórias e emoções não processadas.

Diferente da ponte que o perdão faz, o esquecimento cria novos muros. E, em vez de pontes consigo mesmo e com os outros, criamos muros. Eles começam nos dividindo por dentro. De dentro para fora, nos acostumamos com eles. Eles se tornam a nossa paisagem e, de repente, muros são tudo o que vemos.

Confundimos perdão e esquecimento pelo seu efeito resolutivo. Ambos os caminhos dão “um fim” a algo. Pelo menos é o que parecemos acreditar. Mas vem comigo, vamos pensar juntos: escolher esquecer nunca foi uma escolha real; talvez fosse como conseguíamos lidar com a situação, com o momento, pela incapacidade de compreender ou atravessar a dor que alguém ou algo causou. Às vezes é só isso que temos.

E eu não acredito que isso seja um problema. Somos gente. E gente se irrita, às vezes estoura, às vezes faz cagada.

Mas o problema consiste em não aprender a perdoar. Certamente algumas coisas serão menos ou mais difíceis de perdoar. No entanto, uma vez que se reconhece que é preciso seguir nesse caminho, algo em nós toma uma postura de humildade e aprendizado.

Se não escolhemos exercitar o perdão verdadeiramente, corremos o risco de viver uma vida inteira sem saber o que seríamos ou viveríamos se a ofensa e a dor não estivessem no lugar de comando.

Acredito que tenho muito o que aprender sobre perdão, e isso significa assumir o risco de amar, de me relacionar, de viver. Pois aprender envolve exercitar, e exercitar significa às vezes ficar dolorido.

Por isso, da próxima vez que algo acontecer na sua vida e seu primeiro esforço for tentar esquecer para não reviver, pergunte-se o que você está evitando e por quê. Talvez hoje você não consiga lidar, ou amanhã. Porém, quanto mais você evita, maior será o caminho amanhã. E talvez um dia esse caminho se torne longo demais, a ponto de nunca chegar a lugar nenhum.

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