Pegue um cesto cheio de limões. Uma faca afiada. Um bom espremedor e um copo parrudo. É tempo de limonar.
Anos se passaram até que eu pudesse compreender o que estava acontecendo comigo. E mais tempo ainda até compreender o que eu poderia fazer a partir daquilo. Só procuramos uma solução para nos sentirmos melhor, mesmo que o que precisamos, às vezes, requeira de nós não parecer melhor. Isso ninguém nos conta, senão a própria vida, que vai nos empurrando e cercando, até não sobrar mais nenhum espaço entre nós e o desconhecido.
E se ser feliz tem um preço, um alto preço que é a verdade. Quem sou eu, o que estou fazendo aqui, quanto tempo eu tenho e o que vou fazer com o que tenho. O que realmente eu tenho? Às vezes só me tenho, se é que me entende.
Um modo de vida comprometido com a verdade
Um modo de vida comprometido com a verdade, esse me parece um bom ponto de partida. Porque, quando as estruturas existenciais são ameaçadas pela possibilidade da morte, a mente humana parece agonizar. Só ter certeza da falta de controle é o fundo do poço. E lá mesmo começamos a repensar. O que fiz, o que construí, o que aprendi, o que deixei, todos os verbos conjugados no passado, pois o passado é tudo o que conseguimos acessar no presente, e o futuro se tornou nebuloso.
A vida comprometida com a verdade repensa escolhas. Ao homem é dada a chance de recomeçar. Reaprendendo o que é viver. O clichê não parece batido, mas encorajador.
Espremer o limão se torna mais do que ressignificar experiências da nossa história. É fazer perguntas difíceis, ainda que tentemos fugir das respostas. Às vezes, fazer as perguntas é tudo o que precisamos. E a resposta aparece no silêncio. Na hesitação. Na saliva que desce seca. E se parece com algo que esculpimos dentro de nós mesmos. Tirando camada após camada de autopreservação, orgulho, medo. Pode ter vários nomes.
Recentemente fui a uma exposição que falava de técnicas de marcenaria japonesa. E fiquei hipnotizada pela fala do artista. Anos desenhando, anos estudando a madeira. Anos fazendo marcações, anos até que uma casa fosse construída. Mas, como ele mesmo dizia, eram anos que faziam com que aquela casa durasse gerações.
Ele gastava dias apenas afiando suas ferramentas. Eu não consigo esperar o micro-ondas esquentar uma comida. Retiro antes que a contagem termine. Isso significa algo.
Talvez tenhamos perdido a dimensão do trabalho interior de viver comprometidos com a verdade. Essa verdade não me isola nem me coloca num pedestal intocável. Pelo contrário, ela atrai quem busca verdade. Atrai quem busca cura. E, ao perdermos a dimensão do trabalho interior, nos sujeitamos a pequenos gotejos que saciam nossa sede por três segundos, e então, próximo. Uma ansiedade que se retroalimenta.
Buscar verdade é buscar realidade, e não apenas nossa realidade circunstancial. Mas a realidade da mente e do coração. O que não queremos ver. Aquilo que preenchemos com agendas, relacionamentos, viagens e metas, muitas metas. Do qual fugimos sempre que algo nos toca. Entramos, então, num estado de alerta. Alerta, esse relacionamento vai exigir abertura, próximo. Esse reencontro vai me abalar mais do que eu quero, próximo. Essa conversa não é previsível, próximo. Esse lugar é desconhecido, próximo.
Criamos uma fábula-verdade, nosso próprio ecossistema de pensamentos e suposições. Que se parece com uma verdade, mas que é frágil demais para ser tocada. Que é superficial demais para ser provocada. Não toque nisso, pois isso coloca tudo em xeque. Esse é um comportamento compreensível quando estamos em modo de sobrevivência.
A arte de Espremer o Limão foi se formando enquanto eu aceitava tocar e olhar com honestidade para o que eu havia vivido, e quando me permiti reconhecer o hoje com um olhar redimido. Não fugir do trabalho interno que precisa acontecer.
Reconhecer o limão, cortar com a verdade, espremer o limão, limpar a bagunça e servir não são passos para o sucesso. É um caminho comprometido com a verdade, envolto num processo gracioso consigo mesmo e com o outro.
Reconhecer, cortar com a verdade, espremer o limão, limpar a bagunça e servir
Por anos, escrever era uma atividade terapêutica para mim, até que um dia deixou de ser somente para mim. Eu precisava dividir. E isso mudou muita coisa, pois, através dessa partilha, eu descobri novos lugares para caminhar na minha própria história. Pude aprender profundamente enquanto revisitava minhas memórias. Pude perdoar mais quando reconhecia o que havia acontecido comigo.
Li diversos estudos ao longo desses anos sobre os benefícios da escrita terapêutica, que, aliada a outras abordagens, proporcionou uma perspectiva mais ampla sobre o que acontecia comigo enquanto eu escrevia: desde a melhoria do sono, apesar de sentir que alguns textos tiravam o meu sono, algo que durava poucos dias, o que eu chamo de “tempo para decantar”, até revisitar graciosamente as memórias e, uma a uma, ressignificar o que era possível e necessário.
Isso levou o Espremendo o Limão a um novo momento. O que antes era apenas um blog assumiu um papel terapêutico. Cresceu para um livro e se tornou um projeto com propósito comunitário.
Espremendo o Limão precisou amadurecer.
O suco desse limão parece ter uma gama de sabores, e isso me alegra muito. A ideia de contar uma história e achar que isso era o fim me inquietava. Mas acreditar que a história continua no outro é um pensamento esperançoso, algo escasso em tempos turbulentos.
E o propósito comunitário não se parece com um grupo de pessoas que sofrem. A dor não é o centro dessa conversa. Mas a dor aparece em certos momentos e, para algumas pessoas, esse é o único lugar e momento em que podem reconhecer que doeu ou dói. E a proposta é não fugir disso. Não mais.
Tenho muitas ideias e aspirações para o que isso pode se tornar, mas, hoje, esse rio corre para lugares novos, territórios que são desconhecidos e, ainda assim, desejados.
