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Quando a oração não resolve

FÉ E SAÚDE EMOCIONAL NA MESMA MESA

Enquanto eu estava atravessando o longo tratamento oncológico, por anos eu recebia pessoas queridas e bem intencionadas que queriam orar por mim. E eu mesma acreditava profundamente que Deus poderia me curar daquela terrível doença. Algo que já havia visto, presenciado. Às vezes eram pessoas que eu não conhecia, mas que de uma forma estranha eu me sentia à vontade suficiente para deixar que eles falassem coisas que às vezes eu mesma não ousava falar. A respeito do câncer, do que meu corpo e minha mente experimentaram. Admito que também deixei alguns orarem por educação. 

Rezas, boas energias, “desejar tudo de bom”, círculos de oração de senhoras fervorosas, amigos distantes, ateus, espíritas, descrentes, frios, mornos. Era uma variedade que minha compreensão não ousava reter. Eu apenas recebia e agradecia. 

Muitas vezes eu estava num lugar sem respostas, sem protocolos, onde a única coisa que eu poderia fazer era confiar. E as orações mudaram ao longos dos anos. Eu mudei ao longos dos anos. Minha fé mudou ao longos dos anos. 

E vida adulta revelou um sabor novo quando eu me tornei mãe. O cordão umbilical que foi cortado ao sair da barriga agora me levaria a provar do terror de ver aquela pessoa viver, aprender e escolher. Como dizem, é como ter seu coração batendo fora do próprio corpo. Isso trouxe um enorme impacto em como minhas orações eram vividas. E ainda assim, a oração não me livrou de provar do amargo sabor da tristeza, da dor, do sofrimento. A oração me ensinou muitas coisas, entre elas, a viver enquanto eu atravessava a tristeza, a dor, o sofrimento. 

A era dos especialistas em ser feliz

Desde a terrível pandemia que vivemos em 2020, que estendeu por um tempo maior do que estávamos preparados, se fala tanto sobre a saúde. Tantos recursos para desenvolver nossa inteligência emocional e talvez nunca fomos tão “atacados” com informação e ruídos que agora nos sobrecarregam. Como ficar melhor, como se sentir melhor, como saber se realmente somos emocionalmente inteligentes, sinais de que você aprendeu como ser saudável emocionalmente. De repente, especialistas brotaram em todo canto. Aprenda comigo, faça o que eu faço. Alcance todo seu potencial, eu te ajudo nisso também. E esse é o tipo de conteúdo que despertou sempre um sentimento agridoce em mim. Talvez por que a promessa de fórmulas de sucesso soam como algo raso para mim, por que de onde vim, e ou que provei me mostraram um lado diferente do viver. 

Não significa que tudo vai ser ou deve ser extremamente difícil, mas que tudo que é fácil demais, possivelmente não te fez trabalhar por dentro. Não exercitou seu interior, moldando caráter, moldando suas estruturas emocionais. 

Há alguns meses atrás eu voltei a fazer terapia, e enquanto buscava uma pessoa que poderia me acompanhar falei para uma amiga que é psicóloga que estava procurando uma pessoa que fosse bem mais experiente, na vida, não apenas na profissão. Eu queria conversar com alguém que já tivesse vivido e sofrido. Eu não estava procurando alguém que soubesse a teoria sobre viver e o sofrer, mas alguém que já tivesse provado. 

Talvez essa escolha fale mais sobre mim do que eu imaginava, mas me ajudou e tem me ajudado. Por que é difícil ter vida emocional saudável nesse tempo, não por causa apenas dos ruídos e percepção de tempo, extrema cobrança de produtividade, estamos cansados tentar parecer saudáveis o tempo todo. Está difícil admitir fraquezas, falhas, está difícil ser humano. 

E pensava recentemente depois de ler uma longa passagem bíblica que relatava pelo menos três gerações de uma família e os grandes feitos que eles fizeram. Eram cumprimento de promessas que revelavam o caráter fiel de um Deus que desenhou propósitos geracionais. Depois de ler percebi uma inquietação. Essa inquietação era reconhecer minha ansiedade de ver, provar, de viver muitas coisas que pudessem me “ validar” com sucesso na vida, desconsiderando um modo de vida, que era vivido por aquelas pessoas no texto. As pessoas viviam longamente, mas também a distância cultural que reflete uma mentalidade que eu dificilmente conseguiria compreender  desse lugar ocidental e contemporâneo de onde estou lendo. 

Os grandes feitos relatados eram vividos ao longo de muitos anos, e talvez por lê-los como breves espaçamento de parágrafos eu os considero mais fáceis e rápidos. Não, estamos falando de décadas até que uma grande coisa fosse construída, anos de espera e confiança até que algo surpreendente acontecesse. Gerações até que algo se cumprisse. 

Na minha experiência eu percebo mais semelhanças nesse sentido. Foram anos até que eu tivesse alta médica. Anos orando, me tratando, acreditando, desfalecendo, me reerguendo, anos aprendendo. Anos que bagunçaram minha saúde emocional de formas que eu nunca imaginaria e que certamente me fizeram duvidar se eu tinha/tenho fé, e fé em quê, fé em quem. 

A benção de viver nesse momento talvez seja a possibilidade da mesa como esse lugar de encontrar outros “humanos”. De tirar nossas máscaras de “pessoas sempre bem resolvidas e imbatíveis”, para olhar mais no olho do outro.  

A fé que eu queria instantânea, tipo miojo

Depois de muitos anos, e muitas orações respondidas milagrosamente eu ainda atravessei e atravesso dores, não por que a oração resolveria minha vida, e até mesmo minha vida emocional, mas por que oração é também exercitar fé. (Eu já escrevi longamente sobre esse tema). Mas a oração enquanto exercício também requer obediência, e a obediência também nos transforma, pois significa atravessar desconforto e assumir riscos, assim, também crescemos. E minha oração começou a transbordar, tocando novas áreas da minha pequena vida, foi me levando para lugares antes desconhecidos, foi ressignificando o exercício da fé. Foi me levando para mais perto de Deus de uma forma que a Larissa de anos atrás acreditava que deveria ser instantaneamente. Tipo Nissin-miojo. 

Agora aos 38 anos eu aprecio o cozimento lento, o sabor que aparece em camadas, e uma boa conversa numa mesa regada de amor.  Para mim, esse parace ser um bom caminho de sucesso, porque a vida de oração não consiste em receber de Deus apenas o que eu quero, mas o que preciso. E às vezes o que eu preciso é não receber e ainda assim dizer — amém.

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